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25/10/2005 10:54
Poderia pensar em hoje como uma quarta-feira, mas já estamos na sexta. O tempo é realmente estranho, não pode e não vai esperar. E foi nesse tipo de pseudofilosofia da vida que iniciei minha primeira e mais importante- viagem. Destino: Eu !
Hesitei se a embarcação seria pelos olhos ou pela boca, mas como associe a saliva com as águas dos mares, e navios com viagem, foi pela boca que tudo começou. Estava eu deitado, com os braços esticados e quase sem sentir os pés de tanto que estava relaxado, então calcei as sandálias de peregrino, coloquei a mochila nas costas e fui! No começo da estrada, olhei duas vezes para trás, na primeira vi minha mãe acenando com um lenço coloridinho, meigo como seus gestos, breve como sua vida, na segunda não vi mais ninguém. A estação estava vazia, um ar nostálgico e denso, parecia daquelas cidades cinematográficas onde nada ocorre além de ficção, mas eu estava lá e a fazia existir de fato. Fui até a bilheteria, mas me esqueci para qual cidade eu ira primeiro.
- Bom Dia!
- Bom Dia - respondi sem saber a quem, dando um giro sobre meus pés pra ver de
onde vinha.
- Ainda que algo possa ocorrer, corra, antes do que não pode aparecer, apareça. Saiba para onde ir, qual porta abrir, entenda meu proceder, saiba o que vai acontecer, para prevenir o mal já escrito para ti, o quebre.
Passei os olhos por toda a estação, e não percebi de onde vinha a voz. Parecia uma
ladainha, uma cantiga feita, em uma voz feia. Não nego, me estremeci de medo com o QUEBRE dito tão medonhamente.
Vi uma cabine vermelha que antes não tinha visto, no meio da estação vazia- mas como tudo combina aqui! pensei, as cores, os sons ...- saía de lá a voz! Larguei a bolsa e fui em passos rápidos até ela. A cabine estava fechada, oras ! Como alguém entra e daí saí? Não via a porta, era como uma cabine telefônica, quadrada de ferro, de um vermelho intenso, sem fechadura ou passagem de ar. Curioso! As frases não saiam de minha cabeça e sentindo uma ponta de raiva dei um chute leve no ferro. Nem se moveu. Passei o dedo e percebi em alto relevo um escrito. Contra luz não pude ver, era grosso. Fui refazendo as letras com as mãos. Entre sem bater! Dizia. Comecei com as duas palmas das mãos a empurrar, claro que entraria, falei, se eu conseguiss... Ah!! Uma das laterais foi para frente e depois se abriu. Um cheiro de queimado empestava aquele cubículo. Tudo escuro, de repente tudo claro, uma luz amarela, vinda de um lustre antiguíssimo de vidro colorido, simétrico, o qual me fez lembrar a decoração da casa de um tio colecionador. O tamanho de um metro por um daquela cabine me dava uma horrível sensação. Vazio! Assim me parecia quando escuro, mas quando a luz ofuscou minhas pupilas. Credo ! Uma velha horrível, magérrima, de olhos fundos e sofridos, pele já retorcida, parecia ter muitos, mas muitos anos e olhava-me fixamente.
A porta havia fechado e percebi que o interior era espelhado, nas quatro laterais. Me espremi em um dos lados a fim de não ficar muito perto daquela figura. Rente ao meu rosto, o dela. Não me desesperei, mesmo não me parecendo completamente inofensiva.
- O trem tarda a chegar, entre um sol e a lua, só uma vez vai passar.
- Eu sei, por isso vim no horário certo. mas eu a conheço, pensei, é muito
familiar sua voz, sua presença, seus olhos caídos...
- Eu sei que me conheces, te conheço como ninguém. O itinerário de tua cabeça, tudo que tua mente quer que esqueça, as estradas de teus pensamentos, tuas falsas e verdadeiras morais... e tanto e tanto mais. Te conheço mais do que tu mesmo, estou ciente de ti desde que nasceu, teus princípios e caráter, tua mais podre parte, e muitas vezes te salvei.
- Ah ! maldita consciência !
(continua)
Laís Mussarra
enviada por Plantando Letras...
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