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25/10/2005 10:58
Naquela manhã sua vida tomara um caminho diferente. Não dobrou a esquina habitual que o levava ao trabalho, pois um pouco antes, como se uma simples lembrança pudesse desvelar uma vida inteira, ele desistira dos dias e desandara silenciosamente em direção a um silêncio ainda maior. Sentiu emergir toda a angustia e tensão que acumulara como patrimônio, e que na noite anterior quase lhe explodira a cabeça e o coração; Invadiu-lhe uma vontade enorme de vomitar, mas não o fez, apenas pronunciou algo quase inaudível e não dobrou a esquina. Atravessou a rua, abaixou a cabeça, sentiu o sabor do sal atravessar-lhe os lábios e caminhou, pensando que só queria distanciar-se de tudo, esquecer tudo, perder tudo, o trabalho já passou, a família se foi, o amor secou, minha casa não mora mais em mim, posso caminhar em paz, pois já não há mais nada a fazer. Abaixou a aba do boné como se quisesse fechar os olhos para sempre; agora via apenas seus passos sobre a calçada esburacada enquanto ouvia a própria respiração, suave como a de um peixe; sentia o sal ressecado sobre suas pálpebras e o suor que se acumulava nas sobrancelhas. Esquecia quase tudo e começava a não sentir mais nada, já não reconhecia o caminho por onde andava, subidas, descidas, avenidas, ruas, praças, a cidade já não se via, uma estrada, pontes, pequenas vilas, o sol ardente da tarde, morno no poente, a chegada da noite, os músculos e o estômago doloridos, a cabeça vazia, a chuva que começa a cair, a porta de ferro que se fecha, a caixa de papelão vazia, o corpo exausto e adormeceria pensando num passado feliz e perdido. Sob o papelão, como um palhaço, ainda insinuou um ínfimo sorriso, emocionado, triste e morto, como o seu amor pela vida.
(Roberto QT - robqt@terra.com.br)
enviada por Plantando Letras...
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